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Não há meio de reformar nossa democracia a não ser pela política

O Tempo – 15/11/2017
Por Murillo de Aragão

 

É tenso, uma vez mais, o momento político que vivemos. A inflação está sob controle, as reformas avançam, e a economia volta a crescer. Mas a popularidade do presidente é baixa, a questão fiscal domina a agenda, e o cenário sucessório é nebuloso. Intensa contradição.

Nessas horas de angústia, nossa inclinação é, na busca precipitada de uma solução, pôr na mesa aquela discussão que vai e volta sobre nosso modelo de governança. Ou seja, o sistema político de acordo com o qual organizamos a gestão do Estado. O parlamentarismo é sempre a alternativa em vista.

Antes de tudo, porém, cabem algumas reflexões a respeito de nossas origens, temperamento e condução atual. Para começo de conversa, não somos uma democracia no sentido moderno nem temos uma boa política na rotina de nossas decisões. Por quê? Faltam-nos instituições e, antes mesmo destas, faltaram-nos líderes que nos conduzissem a um patamar institucional mais sólido.

Como resolver o dilema da democracia inexistente e da má política predominante? Não existe resposta fácil ou já teríamos chegado a ela. Pensando bem, a verdade é que nossa origem não é das melhores. Nascemos como um empreendimento, e não como nação e, se não fosse Napoleão, teríamos nos dividido em republiquetas.

A fuga da família real de Portugal para o Brasil nos deu uma chance que, felizmente, não foi desperdiçada. A oportunidade proporcionada pela história resultou na criação de um país.

Situados pela geografia longe do centro dos acontecimentos, fomos poupados de uma sequência de tragédias mundiais, mas não deixamos de criar problemas para nós mesmos. Hoje, a instabilidade, ora econômica, ora política, é um deles, talvez o mais forte, uma pedra no caminho sempre que supomos haver tomado finalmente um rumo.

Então, voltamos sempre ao desafio proposto, jamais atingido: como fortalecer nossa democracia? O primeiro passo é reconhecer que ela é um objetivo cuja consecução exige participação. O segundo é constatar que a maneira de se chegar à democracia é trilhar a via política.

Assim, o fortalecimento de nossa democracia passa pela atuação da sociedade em diferentes modalidades de ação, que vão além do voto, das manifestações, do debate. É trabalhoso construir a democracia. Quando se dá prioridade à educação, quando se reconhece a urgência das reformas, quando se abre espaço para a iniciativa privada, estamos construindo a democracia.

Não podemos fugir da política como ferramenta para isso e, sem melhorar o nível da atividade política, o lugar aonde chegaremos estará dissociado da nação. A participação na política não significa candidatar-se, obrigatoriamente, a cargos públicos. Pode revelar-se na escolha mais cuidadosa dos candidatos, na avaliação da credibilidade das promessas de campanha e no equilíbrio e bom senso das propostas e ideias defendidas.

Exige também uma atitude mais responsável da cidadania frente ao noticiário da mídia impressa e eletrônica e à qualidade da informação que circula pelas redes sociais. Valores fundamentais do mundo, que impactam as eleições, a Justiça, a própria organização da sociedade. É daí que têm surgido os fundamentos da reforma da democracia.

Precisamos persegui-la com muita disposição. Precisamos cuidar do homem em primeiro lugar. Enquanto não vivermos como o poeta amazonense Thiago de Melo propunha – “Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem, como a palmeira confia no vento” –, devemos duvidar.