O que o mercado financeiro em NY pensa sobre o Brasil?

GQ Brasil – 05/04/2018
Por Thiago de Aragão

 

Para a enorme maioria da população, o que o mercado financeiro pensa ou deixa de pensar sobre o Brasil tem pouca importância. Há um sentimento patriótico, para muitos, em ignorar solenemente o que centros financeiros como NY, Londres ou Frankfurt pensam sobre o país e suas condições para investimentos.

Na realidade, a importância é grande, e como uma sequência de dominós enfileirados, o fluxo de capital para um país instável como o nosso determina, em parte, o crescimento econômico.

Essa semana, conversei com muitos investidores baseados em NY, com ampla experiência de investir no Brasil, como faço regularmente. Todos, em uma medida ou outra, ganharam e perderam centenas de milhões investidos no país. O conhecimento sobre o Brasil não é profundo, mas razoável para esses estrangeiros.

As perguntas sobre Lula diminuíram. Partem do pressuposto que Lula não concorrerá, pois o Supremo não “esmagará as instâncias inferiores”. Sobre sua prisão, não se importam, desde que isso não se torne um problema de ordem social, apesar de ter sido ratificado (ao menos temporariamente) pelo STF. O índice de rejeição contra seu nome impressiona e ficam surpresos pelo número de pessoas próximas ao ex-Presidente que estão presos.

Bolsonaro despertou mais interesse entre o fim de 2017 e o começo de 2018. As perguntas focavam principalmente na sua política econômica e potencial formação de uma base aliada. Sem esses dois pontos, não teria sustentação. Vários viram sua palestra em Nova York no ano passado e não se impressionaram.

Meirelles é um nome que naturalmente agrada a grande parte do mercado. Seu passado no BankBoston é constantemente lembrado e exaltado. No entanto, existem sérias dúvidas se ele seria um bom político. Questionam muito sobre seus círculos políticos, potencial de trânsito entre outros partidos e força para “domar” o Congresso.

Em relação ao Governador Geraldo Alckmin, ainda não se fala muito sobre ele. Alckmin é lembrado por ter feito 40 milhões de votos no auge da popularidade de Lula e por ter governado o estado mais rico do Brasil com resultados satisfatórios. Por outro lado, o mercado entende que ele possa ser um candidato “para tempos menos turbulentos” do que o atual. Afinal, não sabem dizer o que ele pensa como candidato ou o que propõe.

A possível candidatura do Presidente Temer também foi tratada com grande surpresa. Observando sua taxa de aprovação, não compreendem os reais interesses por trás. De qualquer forma, estão mais preocupados em saber que tipo de candidato ele (e principalmente seu partido) apoiaria no segundo turno.

As reformas são a preocupação número um, particularmente a da Previdência e, se possível, a Tributária. Já a reforma política, ganha importância nos olhos desses investidores quando é explicada em detalhes. A segurança jurídica, algo que sempre foi questionado, passou a ser uma preocupação maior ainda.

Goste ou não, qualquer país precisa de capital externo. A China comunista, a Venezuela semidestruída e a Alemanha organizada, todos precisam. Não cabe discurso anti-investidor em um país como o Brasil. Em um momento onde as emoções se sobrepõem à responsabilidade, o mercado financeiro faz seu jogo e analisa aonde investir bilhões de dólares correndo o menor risco possível.